Intestino

Manifestações extraintestinais da DII: o que observar além do intestino

A doença de Crohn e a retocolite ulcerativa podem afetar articulações, olhos, pele, fígado e circulação. Saiba o que observar e quais exames fazem parte do acompanhamento.

Conteúdo educativo · Revisado por Dra. Natane Vitti Lourenço em 14/10/2026

Uma doença que vai além do intestino

A doença inflamatória intestinal (DII), que inclui a doença de Crohn e a retocolite ulcerativa, é uma condição imunomediada: a inflamação pode se manifestar também fora do intestino. Segundo a diretriz europeia mais recente sobre o tema (ECCO, 2024), até metade das pessoas com DII terá ao menos uma manifestação extraintestinal ao longo da vida.

Elas podem acometer o sangue e a circulação, as articulações, os olhos, a pele e o fígado. Por isso, vale relatar nas consultas qualquer sintoma novo, mesmo que pareça não ter relação com o intestino.

  • Sangue e circulaçãoAnemia e trombose
  • Articulações e colunaDor lombar inflamatória, artrite
  • OlhosUveíte, esclerite, episclerite
  • Pele e bocaEritema nodoso, pioderma, aftas
  • Fígado e vias biliaresColangite esclerosante primária
Ilustração: onde as manifestações extraintestinais da DII podem aparecer.

Acompanha ou não a atividade intestinal?

Algumas manifestações costumam aparecer junto com a inflamação do intestino, e controlar a DII é a base do tratamento. Outras podem seguir um curso próprio e surgir mesmo com o intestino controlado; nesses casos, costumam precisar de tratamento específico e, muitas vezes, de outro especialista trabalhando em conjunto.

Costuma acompanhar a atividade do intestinoPode seguir curso próprio
Eritema nodoso e episclerite
Muito frequentemente aparecem com a doença ativa.
Uveíte
Na doença de Crohn, pode se associar à inflamação intensa; na retocolite, o risco não parece variar com a atividade.
Pioderma gangrenoso e espondiloartrite
Podem surgir mesmo com o intestino controlado, e até antes do diagnóstico da DII.
Ilustração simplificada, não uma escala: cada pessoa evolui de um jeito.

Anemia: a manifestação mais comum no dia a dia

A anemia é uma das complicações mais frequentes da DII. Estudos citados pela diretriz europeia encontraram anemia em cerca de 27% das pessoas com doença de Crohn e 21% das pessoas com retocolite. As causas mais comuns são a falta de ferro e a própria inflamação, que dificulta o aproveitamento do ferro pelo organismo. Deficiências de vitamina B12 e de folato e alguns medicamentos também podem contribuir.

A ferritina, que mede os estoques de ferro, pode parecer normal mesmo quando falta ferro se houver inflamação. Por isso, ela é interpretada junto com outros exames. A reposição pode ser feita por via oral ou na veia, conforme a intensidade da anemia e a atividade da doença: uma decisão individual, tomada na consulta.

Trombose: um risco que aumenta na crise

Pessoas com DII têm, em média, cerca de duas vezes mais chance de ter trombose venosa, com formação de coágulos nas veias das pernas ou nos pulmões, segundo uma metanálise de estudos observacionais. O risco é maior durante as crises, nas internações e após cirurgias. A diretriz recomenda medicamento para prevenir trombose em toda internação de pessoas com DII, inclusive quando o motivo é a própria crise.

Inchaço e dor em uma das pernas, falta de ar súbita ou dor no peito pedem atendimento médico imediato.

Articulações e coluna

As manifestações articulares estão entre as mais frequentes e seguem dois padrões. No axial, a inflamação atinge a coluna e a bacia, com dor lombar e rigidez pela manhã. No periférico, atinge braços e pernas, com inchaço das articulações, dor onde os tendões se prendem ao osso, como no calcanhar, ou inchaço de um dedo inteiro. Os sintomas podem surgir antes ou depois do diagnóstico da DII.

O padrão orienta o tratamento, que às vezes é definido em conjunto com a reumatologia. Converse com sua equipe antes de usar anti-inflamatórios por conta própria: na doença de Crohn, há possível associação desses medicamentos com crises.

Olhos: sinais que não podem esperar

A uveíte e a esclerite podem comprometer a visão e precisam de avaliação oftalmológica urgente. Os sinais de alerta são dor ou desconforto no olho, sensibilidade à luz, visão embaçada e dor ocular intensa, que chega a acordar ou impedir o sono.

A episclerite costuma causar vermelhidão sem dor importante e sem alteração da visão. Ela tende a acompanhar a atividade da DII e, em geral, melhora com o controle da doença. Na dúvida, procure avaliação: só o exame oftalmológico diferencia esses quadros.

Pele e boca

Entre 15% e 20% das pessoas com DII desenvolvem alguma manifestação na pele. A mais comum é o eritema nodoso: nódulos avermelhados e dolorosos, de 1 a 5 cm, geralmente na frente das pernas. Ele costuma aparecer com a doença ativa e melhorar com o controle do intestino, em geral sem deixar cicatriz.

O pioderma gangrenoso é menos frequente, mas mais sério. Começa como uma pequena bolha ou ponto de pus e evolui para uma ferida dolorosa e profunda, com bordas arroxeadas, ou mais escuras na pele negra, e pode surgir após pequenos traumas. Precisa de avaliação rápida e, em geral, de tratamento em conjunto com a dermatologia. Aftas na boca e reações na pele a alguns medicamentos também podem ocorrer e devem ser comentadas na consulta.

Fígado e vias biliares

A colangite esclerosante primária (CEP) é uma inflamação crônica dos canais que levam a bile do fígado ao intestino. É mais comum na retocolite ulcerativa: numa grande coorte suíça, foi encontrada em cerca de 4% das pessoas com retocolite e 0,6% das pessoas com doença de Crohn. Muitas vezes não causa sintomas no início, e por isso os exames de sangue do fígado fazem parte do acompanhamento de rotina.

Quando as alterações persistem, o exame indicado costuma ser a colangiorressonância. Quem tem CEP deve ser acompanhado também por hepatologista desde o diagnóstico, porque a condição exige vigilância específica, inclusive para alguns tipos de câncer.

O que você pode fazer

Relate sintomas novos, mesmo fora do intestino; mantenha os exames de acompanhamento em dia; evite automedicação, especialmente com anti-inflamatórios; e, em caso de internação, lembre a equipe de que você tem DII. O cuidado das manifestações extraintestinais é um trabalho de equipe, que pode envolver gastroenterologia, reumatologia, oftalmologia, dermatologia e hepatologia.

ExameFrequência geral
Hemograma, ferritina, saturação de transferrina e PCRA cada 6 a 12 meses com a doença controlada; pelo menos a cada 3 meses com a doença ativa
Vitamina B12 e folatoPelo menos uma vez por ano em quem tem maior risco, como Crohn no intestino delgado ou cirurgia de ressecção
Exames do fígado (ALT, fosfatase alcalina, GGT e bilirrubina)Em geral a cada 6 meses
Frequências gerais da diretriz ECCO 2024. Sua equipe define os exames e os intervalos no seu caso.
Olhos

Dor ocular, sensibilidade à luz, visão embaçada ou dor intensa que acorda à noite.

Oftalmologia com urgência
Pele

Ferida dolorosa que cresce rápido, com borda arroxeada ou escurecida.

Avaliação rápida
Circulação

Inchaço e dor em uma perna, falta de ar súbita ou dor no peito.

Atendimento de urgência
Sinais que pedem avaliação rápida.

Fontes para esta leitura

Este conteúdo é educativo e não substitui avaliação médica individualizada.

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